domingo, 17 de maio de 2009

Professor, diz-me por que?

Professor, diz-me por quê?
            Cecília Meirelles

Professor diz-me por que?
Por que roda o meu pião? 
Ele não tem roda
e roda, gira, rodopia
e cai morto no chão... 

Tenho nove anos, professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar
Por que é que o carro é azul?
Por que é que marulha o mar?
Por quê?
Tantos porquês que eu ...
eu queria saber!

E tu que não me queres responder! 
Tu falas, falas professor 
daquilo que te interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar,
se eu vou descobrir
faz-me decorar!
É a luta professor
a luta em vez do amor....

mas,
enquanto tua voz zangada ralha
tu sabes, professor,
eu fecho-me por dentro,
faço uma cara resignada
e finjo que não penso em nada,

mas penso...
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar...
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar.

E quando tu vens definir
o que são conjuntos e preposições,
quando me fazes repetir
que os corações
tem duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tantas mais definições...

Meu coração, o meu coração
Que não sei como é feito
E nem quero saber...
Cresce dentro do peito
A querer saltar pra fora, professor
E ver se tu assim compreenderias
E me farias mais belos os dias!


quarta-feira, 25 de março de 2009

SUCESSO NAS ESCOLAS PÚBLICAS

 

            Recentemente foi realizada uma pesquisa[1] que pretendia conhecer as boas práticas em escolas públicas que determinavam uma boa produção dos seus alunos na Prova Brasil, aplicada pelo MEC no país inteiro.

            Escolheram, das 50 mil escolas onde esta prova foi aplicada, uma amostra de 33 escolas que obedeciam às seguintes condições:

  • - eram escolas de ensino fundamental, com pelo menos 30 alunos de 1ª a 4ª série ou 5ª a 8ª série ou ambas;
  • - eram todas escolas cuja nota média dos alunos era maior que a média nacional, encontrando-se entre as 5% com melhor desempenho;
  • - atendiam alunos provenientes de comunidades de baixa renda, com pouca escolaridade, em situação de vulnerabilidade;
  • - distribuíam-se pelas cinco regiões do Brasil, sendo localizadas em zona urbana ou rural de 32 municípios de 15 diferentes estados da federação.

            A Associação Educacional Labor considera oportuna e inteligente a idéia de pesquisar as escolas bem sucedidas, superando a tradicional postura de lamentar o que vai mal, culpabilizando uns e outros pelo desastre e repetindo hipóteses que são fruto mais de preconceito do que de conhecimento real.

            Encontrar escolas que conseguem sucesso e alunos que aprendem bem, mesmo  em situações adversas, não só desmente os preconceitos, como pode indicar caminhos para encontrar soluções que estão à mão, com instrumentos e propostas accessíveis e característicos da nossa cultura.

            As 33 escolas foram visitadas, seus alunos, professores, diretores, funcionários foram entrevistados, assim como pais de alunos e lideranças da comunidade atendida.

            Nas entrevistas, em 32 dessas escolas o êxito na prova Brasil foi atribuído aos professores.

            Empenho, competência, interesse, dedicação, disposição para criar, inventar atividades e estimular os alunos, busca permanente para se aperfeiçoar, foram as qualidades mais identificadas nesses professores.

            Também foram muito lembradas qualidades como calma, paciência, exigência, diálogo, boas relações em todas as esferas da escola, busca de inovações, formas divertidas de ensinar, entre outras.

            Evidentemente, as qualidades dos professores não esgotavam as condições que permitiram o sucesso dos alunos daquelas escolas.

            Nas 33 escolas os alunos foram apontados como fundamentais para o bom resultado: ali, os alunos eram percebidos de forma positiva, valorizados, mostravam-se interessados, confiantes,  valorizando também seus professores.

            A equipe escolar bem entrosada, com bom relacionamento, gestão democrática, existência de projeto pedagógico na escola e de projetos de ensino, apareceram como fatores muito importantes, cada escola revelando o seu ponto forte em todas ou pelos menos algumas dessas condições.

            Finalmente, a presença das famílias e da comunidade na escola, parcerias da mesma com outros setores, também se revelaram fatores cruciais para o sucesso.

            A proposta  Labor tem seus alicerces em 3 idéias básicas e simples, no que diz respeito à relação ensino-aprendizagem:

              O aluno é um agente fundamental nesta relação e seu interesse em aprender é indispensável para qualquer processo pedagógico.

            2ª. O professor é o outro agente fundamental da educação e qualquer trabalho pedagógico só será eficaz se ele estiver plenamente envolvido com o processo, empenhado, seguro e confiante em si.

            3ª Qualquer método, qualquer orientação pedagógica, por mais completa e melhor que ela seja, tem limites e inadequações quando aplicada na experiência concreta. O que a torna realmente boa, é o trabalho humano, que corrige, amplia e adapta a metodologia na sua prática diária. 

            Por isso a Associação Educacional Labor vem, desde que foi fundada, em 1991, defendendo a idéia de que é preciso valorizar, acreditar e apoiar a indispensável aliança entre professores e alunos.


[1] Aprova Brasil – O Direito de Aprender 

   MEC, Unicef 

segunda-feira, 9 de março de 2009

A QUEM SE DESTINA ESTE ESPAÇO



Este espaço se destina às pessoas que se interessam por educação.

Às pessoas que desejam sinceramente melhorar a forma como se prepara os cidadãos em todo o mundo e, especialmente, no nosso país.

Às pessoas que gostariam de contar experiências positivas e inovadoras que promoveram ou que observaram na educação de crianças, adolescentes, jovens e adultos.

Às pessoas que gostariam de dar sugestões ou idéias que possam ser úteis para educadores enfrentarem com mais coragem e sucesso os desafios que encontram no seu trabalho.

Às pessoas que gostariam de levantar questões que poderiam gerar reflexão sobre o tema da educação.

Às pessoas que gostariam de compartilhar experiências, descobertas, dúvidas ou desafios que encontram no exercício da sua prática educativa.

A todas as pessoas que acreditam, que desejam, que batalham, com os olhos postos no horizonte de um mundo melhor.

Este espaço se destina mais especialmente àqueles educadores que compartilharam experiências com a Labor, os nossos queridos Educadores Labor.

Equipe Labor

terça-feira, 3 de março de 2009

Pra Começo de Conversa

Escolhemos, para iniciar nossa conversa, a história verdadeira que aconteceu com uma professora que fez o curso Labor, numa escola que recebia muitas crianças do PETI, em Santo Antonio de Jesus, BA.

Porque a Labor nasceu do desejo de histórias como esta.




LANTERNA

Na escola ele vivia pelas beiradas.

Como na vida.

Os colegas caçoavam dele e se afastavam. Cheiro de lixo, diziam.

Gente grande não falava nada: só se afastava.

Ele também não procurava ninguém, orgulhoso na sua humilhação.

Vivia emburrado e só.

Também não participava das aulas, pouco entendia do que a professora ensinava e não tinha coragem de perguntar. Como podia dar atenção para as lições se estava ali, tão infeliz?

Ficava fazendo as suas coisas. Calado, que não era de muito falar.

Não ligava quando diziam que tinha errado. Estava sempre errado, mesmo. Já na vida nascera errado, como seus pais e seus irmãos que viviam de catar aquilo que os outros jogavam fora.

Um dia a professora pediu que cada um escolhesse um animal para desenhar. Um colega lembrou dele: este, só pode mesmo desenhar um porco! Urubu, falou o outro, gostando da brincadeira. A professora é que não gostou. Defendeu e acarinhou o aluno, chamou-o para perto de si. Mas ele não foi, encolhido no seu canto, empacado.

Não fez desenho, fez dobradura. Não fez bicho, fez um barco.

Desejo de ir pra longe, sumir na largueza do mar...

Os colegas caçoaram, mas a professora gostou: queria aprender a fazer aquele barquinho e os colegas também quiseram.

Então, ele ensinou: desta vez era ele que sabia, ele que ajudava, a ele que chamavam para ver se estava certo. Viu admiração no olhar dos colegas e se admirou. Saboreou aquela importância, um gosto de esperança na boca. Uma luz acendeu por dentro dele quando acreditou que tinha um saber, que tinha um valor, que merecia.

No dia seguinte pegou uma garrafa pet verde, lavou bem. Recortou e dobrou como já tinha aprendido com a mãe. Fez uma lanterna, enfeitou. Lavou-se com muito esmero, perfumou-se com um resto de desodorante.

Chegou na escola com passo firme, disposto a se sentar no meio dos outros, perto da professora.

Deu a ela a sua lanterna. Num gesto brusco, porque encabulado.

Escolhemos a lanterna do pequeno aluno conquistado para simbolizar nossa certeza: de que a verdadeira luz está ali onde se acende uma esperança.

E queremos neste espaço, primeiramente agradecer a todos que nos permitem conhecer histórias e lanternas de pequenos excluídos que se acenderam.

Magui

Magui